TEA e a Narração de Histórias

TEA - Transtorno do Espectro Autista

Olá meu caros educadores e pais! Hoje, vou falar sobre algo super importante: contar histórias para crianças com TEA, ou Transtorno do Espectro Autista. Eu mesmo sou um pai de autista e sabemos que essas crianças têm necessidades especiais de comunicação e a narração de histórias pode ser uma forma lúdica e eficaz de estimular a linguagem e a imaginação delas. Além disso, as histórias podem ajudar no desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas. Então, vamos ver algumas dicas de como contar histórias para crianças com TEA? Ah, e logo após as dicas, vou dar minha vivência de pai que usou a contação de histórias desde cedo. Vamos lá….

Escolha uma história legal

Na hora de escolher a história, pense no que a criança gosta, na idade e na compreensão dela. Histórias com personagens ou situações que a criança se identifica ou que falem sobre temas que ajudem a entender o mundo ao redor podem ser mais legais.

Use desenhos e objetos

Crianças com TEA podem ter dificuldade em entender ou seguir a história só com as palavras. Por isso, é legal usar recursos visuais, como desenhos, ilustrações ou objetos que representem os personagens da história. Isso ajuda a prender a atenção e a entender melhor a história.

Fale de um jeito simples

A forma como você conta a história também é importante. Tente usar uma linguagem simples, clara e direta, sem muitas palavras difíceis ou figuras de linguagem. Ah, e cuidado com a velocidade e o tom de voz, evitando falar rápido demais ou em um tom muito alto ou baixo.

Pergunte e faça pausas: Durante a história, faça pausas estratégicas para perguntar à criança o que ela está achando ou se está entendendo. Isso ajuda a estimular a comunicação e a interação, além de ver se ela está acompanhando a história.

Repetição e Ecolalia

Uma outra dica importante é estar preparado para a possibilidade de a criança com TEA repetir partes da história ou frases inteiras. Isso é conhecido como ecolalia, e pode ser uma forma da criança processar e compreender melhor o que está sendo contado. Assim, podemos também usar repetições na história, como versos, músicas, frases e palavras recorrentes a cada certa cena, ou situação. Não se sinta frustrado ou interrompa a criança nos momentos que ela mesma repita parte da história, mas aproveite para reforçar a história e ajudá-la a entender melhor os personagens e a trama.

Também podemos recontar a mesma história, uma vez por semana, ou até mesmo em intervalos mais curtos, entrando em sintonia com a “ecolalia tardia”, já que, muitas vezes, as crianças com TEA disparam a falar de coisas, ou a repetir frases vivenciadas dias, ou semanas atrás.

Estimule a Ludicidade

Por fim, deixe a criança criar! Embora as crianças com TEA sejam, na maioria das vezes, literais, podemos estimular a ludicidade criando condições para a criação subjetiva. Encoraje ela a inventar a própria versão da história, a imaginar o que acontece depois ou a criar novos personagens. Isso ajuda a desenvolver a imaginação e a criatividade. Isso pode ser feito introduzindo sons, objetos e introduzindo intenções diferentes a cada vez que recontamos a mesma história. Como exemplo, podemos passar um objeto, ou personagem para as mãos da criança que foi usado na história e começar a contar aquela cena em que o objeto participa, estimulando seu uso, esmo que de outra forma.

Contar histórias cedo é essencial

E aí, gostaram das dicas? Lembre-se que a narração de histórias pode ser uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de crianças com TEA, ajudando na linguagem, imaginação e socialização. Mas cada criança é única e pode ter suas próprias necessidades e preferências. O importante é estar aberto e disposto a explorar novas formas de comunicação e interação. A criança aprende os princípios da contação de histórias nos primeiros três anos de vida e as crianças com Transtorno de Espectro Autista (TEA) não fogem a regra, então, não tenha medo de errar, comece.

Minha experiência de Pai de Autista que Conta História

Sou contador de histórias desde que me reconheço como um ser interativo. Já escrevia histórias aos meus nove anos de idade e aprendi a ler e escrever entre cinco e seis anos, observando meus avós lerem a luz de velas e sentados à beirada da cama.

Aos trinta e três anos fui pai pela primeira e única vez. Um encantamento surgiu em minha vida na forma de um menino de asas longas, olhar de éter e espírito de bondade e luz. O Icaro veio à terra me ensinar das coisas que o eu já havia me esquecido ao longo do caminho.

Todas as histórias e músicas infantis que ora eu usava nas minhas apresentações ganharam um novo significado e importância. Já não eram ferramentas de trabalho, mas a vivência de um pai descobrindo nas interações com o filho, o quanto a palavra, ritmos e narrativas, tanto orais, quanto gestuais, surtiam respostas interativas entre pais e filhos.

Usando as características do TEA para começar a contar história

A linguagem oral surgiu tardiamente no desenvolvimento do Icaro, apesar dele responder bem aos estímulos e atividades. Tanto eu quanto a mãe do Icaro, notamos que ele gostava de repetições, movimentos circulares, sequenciamento de objetos, geralmente do menor para o maior, ou empilhamento. Como demorou bastante pra falar, usava de gesticulação e palavras incompreensíveis, mas com sonoridade. E as repetições também começaram, a partir dos nove meses, a ser externadas fisicamente pelo Icaro. Movimentos de pêndulo do tronco, depois, os flaps com as mãos.

Entrando na pré-escola

Na primeira semana de escola, a professora, que estava com sua primeira turma, após a formação em pedagogia, chamou-nos e disse que o Icaro tinha traços do TEA (Transtorno do Espectro Autista). O Icaro chamava a professora Jéssica de “Néssicas”. No início do ano dois mil o Espectro Autista ainda era pouco abordado no Brasil e tivemos certas dificuldades em conseguir diagnóstico e acompanhamento especializado.

Primeira professora do Icaro - Jèssica

Mas, nesse momento, era imperiosa a continuidade das atividades lúdicas, artísticas e interação. E a contação de história, o teatro de fantoches, as brincadeiras orais e gestuais das histórias que eu e a mãe do Icaro tanto usávamos em nossas apresentações, foi o porto seguro em que ancoramos todo o trabalho para o desenvolvimento desse nosso menino.

Quando queríamos que o Icaro reagisse a determinadas situações, criávamos roteiros, ou visuais, ou narrativos, ou ilustrativos.

Assim, uma ida ao supermercado virava um “storyboard”  com cada etapa, desde os preparativos antes de sair, durante as compras e até a chegada novamente em casa. Lavar as mãos e as etapas do banho também eram desenhadas pela mãe do Icaro que logo se interessaria pelo desenho. Algumas vezes, a explicação das ações e acontecimentos se faziam através de  interpretações, outras, desenhos, ou mesmo diálogos com um dos fantoches que usávamos nos eventos. Várias vezes ensaiávamos diálogos, ou com fantoches, ou nós mesmos construímos um roteiro simples para que ele entrasse na conversa e interagisse de forma simples, como pedir um copo de água.

E aos poucos vimos que o Icaro conseguiu, não só compreender, como reproduzir parte do processo narrativo, fosse através das “garatujas” que aos poucos se transformavam em desenhos narrativos, ou através de palavras soltas com intenções de frases. Ele estava se apropriando do processo da narrativa, tal qual qualquer criança da ida dele, porém com todas as peculiaridades de uma criança com TEA.

Icaro desenhando historias

A Descoberta da Narrativa

Certo dia ele nos chamou e insistiu que o seguíssemos até a sala. Havia empilhado muitas latas de achocolatado, tanto, que ficou maior que ele. E começou a gesticular e falar palavras soltas, enquanto mostrava e circundava a pilha de latas.

Durante a evolução daquela narrativa, descobrimos que ele contava a idade dele a uma consulta, que ficava em um andar acima do quarto, não me recordo exatamente. E como as crianças do Espectro Autista, na maioria, como o Icaro, tem uma “ecolalia cognitiva”, além da verbal, ele estava narrando a situação acontecida a mais de 6 meses atrás. Estava “contando história” de uma das suas vivências. Ele começou a usar a visualização para demonstrar ideias e pensamentos, auxiliando a sua oralidade que ainda, e ele estava tendo a percepção disso, não estava totalmente compreensível para as pessoas.

Meu menino autista criando imagens concretas de conversas

O desenvolvimento e interação dele com as pessoas, na escola e com as atividades propostas evoluíram rapidamente, e tanto, que não foi preciso nem a medicamentação, optamos em não oferecer. E aqui vale lembrar que cada caso é diferente e com necessidades e possibilidades diferentes.

Foram inúmeros caminhos, escolhas e adaptações até ele chegar aos quinze anos, em 2019. Os desafios hoje continuam, mas com as escolhas que ele mesmo faz e as suas próprias decisões e consequências a respeito delas.

O Poder Lúdico da Narrativa no Autismo

As crianças pequenas contam histórias na maioria das brincadeiras lúdicas que realizam, sejam nos jogos tradicionais, ou no faz de conta. Toda a estrutura da narrativa oral já pode ser observada nas brincadeiras e interações das crianças. Tal qual  o Icaro construindo um prédio para narrar um acontecimento passado, e passando a transformar o significado de cada palavra numa evolução cênica para a nossa compreensão.

Todas as crianças se  expressam narrativamente durante as atividades lúdicas. É assim, segundo “Bruner”, que diz ter uma estrutura gramatical perceptível no ato de brincar das crianças pequenas. Elas constroem o pensamento gramatical à medida que experimentam jogos e brincadeiras. Mesmo que não se expressem com palavras, as condições do brincar e as suas ações durante a atividade, mostram um comportamento  narrativo.

Icaro ensaiando suas primeiras palavras, incentivado pela fascinação de um microfone “desligado” porque ele, como a maioria dos autistas, tem alta sensibilidade auditiva.

Nesse sentido, como a linguagem ainda é prematura e carece de um vocabulário, tanto de vivências quanto verbal, a figura de um “contador de história”, seja ele um dos pais, ou facilitador, ajudará a criança a encontrar a linguagem necessária para se expressar e compreender gramaticalmente seus pensamentos e sentimentos.

Frequentemente com o Icaro, quando ele vinha nos mostrar um objeto, e não raras vezes, propúnhamos transformar o interesse dele pela forma em algum personagem lúdico, ou algo que fosse além da forma para atingir a criação imaginativa.

Por exemplo, quando ele vinha com um pedaço de madeira, ainda sem qualquer  narrativa presente no olhar, mas apenas interessado na estranheza da forma do objeto, fingíamos que era um dinossauro, ou uma nave espacial, com sons e movimentos.  Isso ativava outras formas de brincar com aquele objeto, que poderia durar vários minutos, e, no caso do Icaro, até mais de uma hora. A criação de um vocabulário e a retenção de uma “memória” se concretizava.

A Memória no Processo Narrativo e a Ecolalia

Icaro dançando um Cacuriá

Com a ecolalia do Icaro, percebemos que as lembranças tardias dele poderiam ser usadas a favor da construção de uma narrativa. Isso pôde ajudá-lo no desenvolvimento da linguagem oral. Ele não conseguia se expressar no momento de cada evento, mas somente mais tarde. Desta forma, depois de resolver o encadeamento das sensações, conseguia descrever, ou narrar, ou pedir algum esclarecimento de algo que não chegava a um entendimento.

É um processo que se aplica a qualquer criança pequena, com ou sem TEA. Podemos desenvolver a narrativa abordando as lembranças das crianças, tanto na escola, durante interações entre elas e seus educadores, quando em casa, com familiares.

A abordagem das lembranças pelo facilitador mais velho, ajuda a internalizar  situações e estimula a criança a construir uma ligação entre seus pensamentos atuais aos do passado, contribuindo para a visualização e significados do que ocorreu.

A narrativa ganha simbolismo e ajuda no desenvolvimento cognitivo da criança, enriquecendo sua experiência e, logicamente, sua expressão oral, gramatical e social.

Como referência, muitas vezes, mostrei ao Icaro algo que ele tinha desenhado, ou que nós compramos, como , por exemplo, um livro, um boné, ou mesmo uma fotografia de alguma atividade. Procurava  reativar a memória dele naquela situação: quando, onde, com quem.

Esse estímulo para se narrar adventos acontecidos cria uma relação mais próxima e afetiva que perdura para a fase adulta. E os detalhes que ambos se lembram, mesmo  que sejam fragmentados, ensinam e interiorizam o espírito da narração colaborativa, que se desenvolve  em diálogos, discussões e argumentações ao longo da vida.

A Concretização de Personagens Imaginários

Para contar uma história, seja ela tradicional, folclórica, ou urbana, lançamos mão de inúmeros recursos, tais como:

Icaro brincando com personagens criados por ele mesmo - TEA
  • Fantoches
  • Objetos
  • Dobraduras
  • Livros
  • Músicas
  • Ilustrações

Há uma lista grande de recursos e como usá-los. Eu e a mãe do Icaro ensaiávamos as histórias e usávamos, não raras vezes, o próprio berço como palco dos fantoches, ao alcance, não só dos olhos, mas das suas mãos. Havia bonecos que ele tinha mais afinidades, como um macaco e um elefante, em faixas etárias distintas. Os bonecos são interlocutores, ajudam nas rotinas pessoais, tais como escovar os dentes, dormir, lavar as mãos e outras ações do dia a dia. Abusávamos disso.

Acontece que os personagens eram apresentados por nós, pais, e tinham uma personalidade adquirida através de nós. Faziam coisas que queríamos que o Icaro aprendesse, ou reagisse. E funcionava. E funcionou por um longo tempo. Mas nosso menino queria ir além. Seus desenhos evoluíram de garatujas para cenas e criação de personagens, monstros e grupos de crianças, com nome, biografia, e suas próprias personalidades.

Ele estava reproduzindo, porém, com sua própria imaginação criativa, personagens para se relacionar com o mundo a sua volta, da mesma forma que até então, relacionava-se com os fantoches que nós apresentávamos a ele.

O ato de se apoderar de um instrumento de comunicação e adaptá-lo para as suas necessidades de expressão e compreensão do mundo é uma evolução sofisticada da narração de histórias. Agora, ele, o Icaro, tinha nas mãos um canal para expor suas ideias nas vozes de personagens que ele próprio criara. E cada personagem abordava o mesmo assunto de formas distintas, de acordo com suas próprias características, índole e personalidade.

XINILI E RIQUEZAS

É o jogo mais fantástico dos mundos. É super grátis… esse jogo é super legal e vai te deixar eufórico.

PROTAGONISTA: Xinili – um mocinho do jogo. Ele vai salvar o mundo.

ANTAGONISTA: Ranco – Um vilão do jogo. Ele vai tentar dominar o Mundo.

RANCO comanda todos os exércitos a hipnotizar todos os governos para estragar toda a população.

XINILI e sua equipe fazem as infinitas aventuras, lutando contra os caras Alibabas (ajudantes de Ranco) para estragar seus planos malignos e anular a hipnose das pessoas inocentes.

As batalhas são feitas pelas mentes.

(Criação e desenho dos personagens: Icaro Oliveira Santos)

A narração de histórias fechava o ciclo. Agora, tinha personagens que sofriam e causavam ação e reação, com consequências de acordo com seus atos, e o Icaro expressava suas próprias histórias e vivências através da narrativas dos seus personagens.

Hoje, aos dezesseis anos de idade, o nosso Icaro é um perguntador e narrador voraz. Fala das coisas que lê e das coisas que ouve. E se interessa em saber a razão de acontecimentos que impactam na vida, tanto familiar, quando das pessoas em geral. 

Ainda tem fixação por temas sensacionalistas que lê, ou assiste na televisão, mas aborda os temas com um aguçado senso ético e argumentos de dar inveja a muitos doutores em sociologia.

Icaro e suas HIstórias - TEA - Transtorno do Espectro Autista

Canal “Pingo de AR-Sunto – do Jovem Icaro

Fotos de José Robson, que teve a sorte e o privilégio de ser o pai de Icaro.