O que é Contação de Histórias?
A Contação de Histórias é a arte de transmitir oralmente conhecimentos, valores sociais, além de tradições culturais por meio de histórias (reais, ou fictícias) usando da palavra e da performance dramatizada, com ou sem ferramentas, tais como objetos, música, figurinos e adereços. O significado da contação de histórias (também conhecida como “Narração de História” e “Storytelling”) vai muito além do mero entretenimento: é um instrumento de conexão humana e preservação da memória.
Neste artigo, você vai conferir:
- A Origem da Contação de Histórias (O papel do fogo)
- Benefícios da Contação na Educação Infantil
- Quais os Objetivos da Contação de Histórias?
- Contação de Histórias no Brasil e a Tradição Oral
- De Onde Nascem as Histórias? (Relato de Binho)
- Diferenças entre Contação e Teatro Convencional
- Fundamentos da Narração Viva
- As Ferramentas da Contação de Histórias
- Dicas e Técnicas: Saiba tudo sobre a Arte de Contar
- Cia Artepalco – Tradição Oral como Identidade Cultural

Desvendando A Contação de Histórias
Neste artigo, vamos mergulhar nas origens dessa manifestação sociocultural, desde a pré-história até os palcos brasileiros de hoje, e descobrir a diferença crucial entre narração e contação de histórias. Também, vamos explorar as diversas áreas em que a contação de história está inserida e os pontos de contato com as diversas manifestações artísticas.
Onde Tudo Começou? A Origem da Contação de Histórias
Para entender a contação de histórias, precisamos voltar milhões de anos. É ali que encontramos os alicerces dessa prática, muito antes da invenção da escrita.
Pantomima e Arte Rupestre: As Primeiras Narrativas Visuais
Antes de termos palavras complexas, o ser humano se comunicava com gestos. A pantomima – a imitação de caças e rituais – foi nossa primeira forma de performance. Logo depois, as pinturas rupestres entraram em cena.
Esses desenhos nas cavernas não eram apenas arte; eram os primeiros registros narrativos que passavam conhecimento adiante, mostrando rotas de caça e crenças. Eles são o nosso primeiro storyboard!
O Fogo: O Primeiro Palco para contar histórias
Mas, a grande revolução da narrativa veio com o domínio do fogo, evento que pode ser considerado as origens da contação de histórias. O fogo fez muito mais do que nos aquecer; ele criou o primeiro espaço cênico seguro. Pense bem:
- Durante o dia: A conversa era prática e focada na sobrevivência (“Onde está a comida?”).
- À noite, ao redor da fogueira: A conversa mudava. O medo da escuridão cedia lugar ao calor, à segurança e, finalmente, à imaginação.
É nesse ambiente acolhedor, à noite, que as histórias sobre ancestrais, deuses e lendas se consolidaram. A tradição oral nasceu ali. Ela se tornou a principal forma de guardar e transmitir os valores e as leis de uma comunidade. O fogo, de fato, é o palco original de todos os contadores de histórias.
Contação de Histórias no Brasil: Definição e Significado
Com o tempo, essa prática ancestral evoluiu e ganhou um significado muito especial no Brasil. Enquanto a palavra em inglês é *Storytelling* e em espanhol é *Cuentacuentos*, nós adotamos o termo “Contação de Histórias”.
A Tradição em Nossas Raízes
A Contação de Histórias brasileira se apoia em uma tradição oral profundamente enraizada em nossa cultura. Pense nos:
- Causos do Sertão: Histórias cheias de humor e ironia, contadas à beira do fogão.
- Lendas Indígenas: Mitos que explicam a natureza e ensinam sobre o respeito à floresta (como o Curupira e a Iara).
- Matriz Africana: A herança dos Griots – os guardiões da memória e genealogia – que trouxeram histórias de resistência e sabedoria.
É Correto falar “Contação de História”?
A Palavra “contação” existe? Sim, na língua portuguesa, o termo correto seria “narração de histórias”, todavia, para indicar eventos performáticos, ou educacionais, seja dentro, ou fora de uma instituição de ensino, a classe artística, produtores e meios de comunicação adotaram “contação” como o ato narrativo vinculado a ação, através do radical “Drao”. Drao tem origem no termo grego antigo drao (ou dran), que significa “fazer”, “realizar”, “representar” ou “agir” – “drama” tem a mesma origem etimológica. Assim, contação, em que “conta” sufere a oralidade do “contar” e “ação” o fazer, o “drama”. Temos, então, a “contação de histórias“: dramatização performática de histórias, contos, causos e lendas centrada na atuação do agente contador de história: voz e expressão corporal. Obs.: para números, a palavra correta é “contagem”.
Quais os Objetivos da Contação de Histórias?
Para além do encantamento, a prática da narração oral persegue metas claras no desenvolvimento humano e pedagógico. Entender os objetivos da contação de história ajuda a compreender por que ela é um pilar na formação de novos leitores:
- Despertar o Prazer pela Leitura: Transformar o livro de um objeto estático em uma experiência viva e desejável.
- Estimular a Oralidade e a Escrita: Ao ouvir estruturas narrativas bem articuladas, a criança amplia sua capacidade de organizar o próprio pensamento.
- Desenvolver a Capacidade Crítica: As histórias apresentam dilemas éticos que convidam o ouvinte a refletir sobre o mundo.
- Preservar o Patrimônio Cultural: Manter vivas as lendas, mitos e causos que formam a identidade de um povo.
- Fomentar a Interação Social: A roda de histórias é um exercício de coletividade e respeito ao tempo do outro.
- Facilitar o desenvolvimento da fala: a fonética, a musicalidade e a cadência do “contar” ajudam os bebês a desenvolverem o processo da fala de forma afetiva.
A importância da Contação de Histórias nos dias atuais
Em um mundo dominado por estímulos digitais rápidos, a importância da contação de histórias reside na sua capacidade de humanizar o aprendizado e promover a maturação emocional. Enquanto os objetivos são metas pedagógicas, o valor real está no vínculo afetivo e no resgate da atenção focada. Social e culturalmente, essa prática fortalece a identidade e a empatia, transformando o ato de contar em uma ferramenta essencial para a formação integral do indivíduo.
Narração vs. Contação: Qual a Diferença?
No nosso contexto, é comum fazer uma distinção de uso que faz toda a diferença para quem trabalha com a arte:
- Narração de Histórias: É o ato mais amplo e genérico de transmitir uma história. Pode ser intimista, focado apenas na oralidade do texto, sem grandes recursos.
- O que é Contação de Histórias: É a denominação popular e performática. Ela se estabeleceu para eventos públicos, shows e apresentações. Aqui, entram o teatro, a música, os fantoches e o uso de um roteiro teatralizado e envolvente.
Portanto, a Contação é o show, é a performance que usa a narração como base. Ela é, como disse o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo, o “requinte da técnica” para saber fechar bem uma estória, transformando o ato de contar em uma experiência viva.
De Onde Nascem as Histórias?
Minha jornada com as letras começou cedo, mas de forma pouco convencional. Aprendi a ler e escrever com minha avó materna, Dona Lina, com quem morei entre os 4 e 6 anos. No entanto, um acidente de bicicleta por volta dos 7 anos adiou minha entrada oficial na escola. Passei cinco meses internado no Hospital Presidente, na Zona Norte de São Paulo, e foi nesse isolamento que minha vida mudou.
Minha família morava em Mogi das Cruzes e, em 1977, o transporte era um desafio imenso. Por esse motivo, passei meses sem visitas; minha mãe cuidava das minhas irmãs de cinco e 3 anos, além da minha irmãzinha Regina, ainda de colo. Meu pai se desdobrava em dois empregos — na cozinha da Santa Casa e na segurança da FEPASA. Nesse cenário de distanciamento, uma enfermeira me apresentou a biblioteca do hospital, que ficava bem ao final do meu corredor.
A biografia de Hans Christian Andersen me capturou e aflorou minha veia para a escrita. Com efeito, aos 9 anos, uma professora leu uma de minhas redações e perguntou, desconfiada: “Foi você que escreveu?”. Diante do meu aceno confuso, ela se agachou e revelou: “Você fez uma peça de teatro”. A partir daquele instante comecei a encenar com a turma as histórias que eu mesmo criava.
Posteriormente, ao final da oitava série, decidi me inscrever no curso de Magistério na mesma escola, Enedina Gomes de Freitas. Fui o único rapaz entre três turmas no primeiro ano, para o espanto da diretora, Dona Vera. Foi exatamente nesse ponto que a didática se uniu à prática. Ainda o termo “contação de Histórias” não estava em uso, anunciávamos “Narração de Histórias”, ou “Hora da Leitura”. Assim, juntando a veia dramática com a pedagogia, o meu destino estava selado. Desde então, o teatro e as histórias deixaram de ser apenas um sonho de infância para se tornarem minha missão de vida e profissão.
Um relato de Binho (José Robson) – Um dos Fundadores da Cia Artepalco
A Distinção da Contação Profissional
No mundo de hoje, dominado por telas e informações rápidas, a Contação de Histórias tem uma importância redobrada: ela resgata o afeto e a atenção focada. Mas, contudo, ela não é a mesma coisa que Teatro Convencional.
Por Que a Contação Não é Teatro Convencional
Enquanto o Teatro de Repertório exige grandes recursos técnicos (cenografia complexa, sonoplastia, grandes equipes) e busca uma fidelidade literal à peça, a Contação de Histórias:
- Mantém o Narrador no Centro: “O contador é a ponte”. Ele não some na personagem, ele é o guia.
- Prioriza a Palavra Falada: A força está na voz, na entonação e no gesto simples.
- É Móvel e Adaptável: Pode acontecer em uma sala de aula, uma livraria ou no terreiro, sem depender de uma infraestrutura cênica complexa.
Contação de Histórias na Educação Infantil: ferramenta pedagógica
Muito além do lúdico, a contação de histórias é uma ferramenta pedagógica insubstituível. Escolas e educadores utilizam essa prática para promover a alfabetização emocional e o desenvolvimento cognitivo. A Contação de histórias na educação infantil devem ser selecionadas para despertar o “sorriso” nas crianças, mais do que o “oba-oba” da recreação. Ao ouvir uma história, a criança:
- Estimula a Escuta Ativa: Desenvolve a capacidade de foco e concentração em um mundo repleto de estímulos rápidos.
- Amplia o Repertório: O contato com novas palavras e estruturas narrativas acelera o desenvolvimento da linguagem de forma orgânica.
- Fortalece a Empatia: Ao se colocar no lugar das personagens, o ouvinte exercita a compreensão de diferentes realidades e sentimentos.
O uso pedagógico das ferramentas narrativas
No contexto educativo, as ferramentas da contação de histórias atuam como mediadoras do processo de escuta, imaginação e construção de sentido. Livros, objetos, fantoches, música e figurinos, quando utilizados de forma consciente, ampliam a compreensão narrativa, favorecem a participação das crianças e tornam a experiência de aprendizagem mais significativa. Mais do que recursos ilustrativos, essas ferramentas organizam a atenção, estimulam a linguagem oral e fortalecem o vínculo entre narrador, história e público, respeitando os princípios da educação infantil e da mediação cultural.
O que a BNCC diz sobre fala sobre a contação de histórias?
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece que o professor protagoniza a contação de histórias como uma prática pedagógica central. Primeiramente, essa atividade fundamenta o campo de experiência “Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação”, onde o educador estimula diretamente a linguagem, a criatividade e o pensamento crítico dos alunos.
Além disso, ao utilizar recursos como fábulas, contos e poemas, os docentes impulsionam o cumprimento de habilidades específicas, a exemplo da EI03EF02, que foca na compreensão de gêneros textuais, e da EI03EF04, que incentiva a criança a recontar narrativas. Consequentemente, esse processo enriquece o vocabulário infantil e promove uma imersão cultural profunda.
Ademais, a contação de histórias não se limita a um único eixo, pois ela integra todos os campos de experiência de forma transversal. Enquanto narra, o professor fortalece a identidade no campo “O Eu, o Outro e o Nós” e ensina noções complexas de tempo e espaço. Por fim, por meio de estratégias lúdicas como fantoches e música, a escola forma ativamente leitores críticos, criativos e plenamente engajados com o universo literário.
O que diversos autores ligados a educação e cultura dizem sobre a contação de histórias?
Muitos autores, como Piaget, Vygotsky e Paulo Freire, em suas épocas, destacaram a narração de histórias (contação é um termo contemporâneo) como uma das mais valiosas ferramentas para desenvolvimento da linguagem, cognição e veículos socioculturais. Para conhecer frases e citações ditas por estes e outros autores, acesse nosso artigo “30 frases sobre narração de histórias”.
A Arte de Encantar: método de contação de histórias da Cia Artepalco
Contar histórias é, antes de tudo, um exercício de presença. A prática da narração oral exige uma metodologia que priorize a escuta e a presença.. Ao longo de décadas de atuação, a Cia Artepalco lapidou uma metodologia baseada no que chamamos de “A Tríade da Narração Viva”.
1. A Escuta do Silêncio (O “Não-Dito”)
O contador não trabalha apenas com o som, mas com o silêncio. No estilo Artepalco, a pausa é uma ferramenta de pontuação dramática. É no intervalo entre uma frase e outra que a criança projeta sua própria imagem mental.
2. O Corpo como Cenário Vivo
Diferente da contação estática, acreditamos que o corpo do narrador é um mapa. Uma leve alteração no eixo da coluna ou a direção do olhar substitui cenários complexos. O gesto econômico é mais potente que o exagero.
3. A Animação de Afeto (O Fantoche como Co-Narrador)
Nossa especialidade com fantoches não é apenas manipular um objeto, mas sim realizar uma “transferência de alma”. O boneco é um interlocutor que muitas vezes diz o que o narrador não pode dizer.
Essa Adaptação Orgânica é o que fecha o ciclo da nossa metodologia. Na Cia Contadora de História Artepalco, entendemos que a arte de contar histórias vai muito além do entretenimento passivo; é um rito de memória, afeto e conexão cultural.
Ferramentas da Contação de Histórias
Embora a oralidade seja o eixo central da contação de histórias, ao longo do tempo os contadores passaram a incorporar ferramentas expressivas que ampliam o alcance sensorial da narrativa. Essas ferramentas não substituem a palavra — elas a potencializam.
- Livros: como ponto de partida, apoio visual ou objeto simbólico da narrativa – Contando com livros.
- Objetos e adereços: elementos cotidianos que ganham significado cênico (panos, caixas, instrumentos simples) – Contando com Objetos.
- Bonecos e fantoches: personagens que dialogam com o narrador e facilitam a escuta infantil – Contando com Fantoches.
- Música e sonoridades: cantigas, instrumentos e efeitos sonoros que criam atmosfera e ritmo – Contando com Música.
- Figurinos: não como caracterização teatral rígida, mas como sugestão poética de personagens e estados emocionais – Usando Figurinos.
Cada uma dessas ferramentas possui uma função específica dentro da narrativa oral e pode ser explorada conforme o contexto educativo, cultural ou artístico.
Quais são as Técnicas da Contação de Histórias?
Existem inúmeras técnicas, centradas em 3 pilares:
- Na atuação do agente que conta história;
- Em elementos cênicos: objetos, figurinos, sonoplastia (música e sons);
- Em teatro de animação com narração clássica, ou dramatizada: fantoches, bonecos, ilustrações, sombras
Para você que deseja se aprofundar nas técnicas e na prática pedagógica desta arte, explore nossa biblioteca de artigos autorais:
Artigos sobre a arte de contar histórias
Cia Artepalco – Tradição Oral como Identidade Cultural
Manter viva a tradição oral dramatizada é um compromisso com a nossa própria história. O trabalho de pesquisa e prática realizado por José Robson (Binho) e Dani Oliveira desde 1998, integrado à Rede Internacional de Contadores de Histórias, busca catalogar e preservar essas formas de expressão que definem nossa cultura.
Aprofunde seus conhecimentos sobre a Arte Narrativa
A contação de histórias é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento cognitivo e emocional. Para apoiar educadores e pesquisadores, disponibilizamos materiais que exploram os fundamentos lúdicos e a importância dessa prática na formação humana:
Material educativo gratuito para fins de consulta e pesquisa pedagógica.






