O Natal é uma das celebrações mais ricas em símbolos, histórias, contos e lendas, atravessando séculos de transformações culturais, religiosas e sociais. De antigas tradições pagãs ligadas ao solstício de inverno à consolidação do Natal cristão, das narrativas literárias que questionam o mito à sua apropriação pelo consumo no século XXI, as histórias de natal revelam como a data foi sendo construída, ressignificada e disputada ao longo do tempo. Este artigo, Histórias Natalinas: Símbolos, contos e lendas sobre o Natal, propõe uma leitura crítica e contextualizada dessas camadas simbólicas, reunindo tradição, literatura e reflexão social para compreender o significado do Natal além da superfície comercial, resgatando seu valor humano, narrativo e cultural.
Conteúdo deste Guia:
- 1. O Cânone Internacional: Redenção e Milagre
- 2. A Alma Brasileira: Conflito e Esperança
- 3. O Mundo Infantil e a Fantasia
- 4. Teatro e Tradições Populares
- 5. Além da Manjedoura: Origens Pagãs
- 6. A Batalha dos Calendários (25 de Dezembro)
- 7. O Natal no Século XXI: Redenção ou Mercadoria?
- 8. Símbolos Apagados e Implicações Pedagógicas
- 🎯 Proposta Pedagógica (BNCC)
O Natal é muito mais do que uma celebração religiosa; é, talvez, a data que mais gerou narrativas no mundo ocidental. Além do relato bíblico da manjedoura e dos Reis Magos, a literatura mundial e, especialmente, a brasileira construiu um vasto imaginário que mistura redenção, crítica social, melancolia, fantasia e o milagre cotidiano. Das fábulas infantis que atravessam gerações aos contos psicológicos e realistas, a escrita natalina funciona como um espelho da condição humana. A seguir, reunimos e articulamos as obras essenciais para compreender como o espírito do Natal foi traduzido em palavras, em diferentes culturas, épocas e linguagens.
1. O Cânone Internacional: Redenção, Sacrifício e Milagre
Um Conto de Natal (Charles Dickens)
Publicada em 1843, esta obra praticamente inventou o Natal moderno tal como o conhecemos no imaginário ocidental.
A História: Ebenezer Scrooge é um agiota avarento que despreza o Natal e qualquer forma de solidariedade. Na véspera da data, ele é visitado pelo fantasma de seu antigo sócio, Jacob Marley, e por três espíritos: o do Natal Passado, Presente e Futuro.
O Desfecho: Após testemunhar a própria morte solitária e a miséria da família de seu empregado, Scrooge desperta profundamente transformado. Ele se torna o maior benfeitor da cidade, provando que nunca é tarde para mudar o coração. Dickens consolida o Natal como tempo de redenção social e responsabilidade humana.
O Quarto Rei Mago (Henry van Dyke)
Uma parábola literária que expande a tradição bíblica dos Reis Magos.
A História: Artabã, o quarto sábio, vende tudo o que possui para levar três joias — uma safira, um rubi e uma pérola — ao Messias recém-nascido. No caminho, ele se atrasa para o encontro com os outros magos ao parar para salvar um homem moribundo.
O Desfecho: Durante 33 anos, Artabã procura Jesus e gasta suas joias ajudando pessoas necessitadas. No dia da crucificação, oferece sua última joia para libertar uma escrava. Morrendo, ouve a voz divina afirmar que suas oferendas chegaram ao destino, pois “o que fizeste ao menor dos meus irmãos, a mim o fizeste”.
O Presente dos Magos (O. Henry)
O conto definitivo sobre o valor simbólico do presente.
A História: Um casal extremamente pobre, Della e Jim, deseja se presentear no Natal. Della corta e vende seu longo e belo cabelo para comprar uma corrente de ouro para o relógio de bolso de Jim.
O Desfecho: Jim, por sua vez, vendeu o relógio para comprar pentes caros para os cabelos de Della. Ambos ficam com presentes inutilizáveis, mas compreendem que o verdadeiro presente foi o sacrifício mútuo movido pelo amor.
A Lenda da Poinsettia (Tradição Mexicana)
Uma narrativa popular que conecta fé, simplicidade e milagre.
2. A Alma Brasileira: Entre a Ceia, o Conflito e a Esperança
No Brasil, o Natal abandona a neve europeia e assume contornos de realismo, humor, tensão familiar e melancolia. Autores nacionais usam a data para discutir relações sociais, desigualdade, desejos reprimidos e pequenos milagres humanos.

O Peru de Natal (Mário de Andrade)
Uma análise ácida, simbólica e profundamente brasileira da família.
A História: Após a morte de um pai autoritário e considerado “santo”, o filho Juca decide que a família finalmente comerá um peru no Natal — algo que o pai sempre considerou um luxo desnecessário.
O Desfecho: A ceia começa tensa, mas o prazer da comida rompe o luto sufocante. Ao devorar o peru, a família também devora simbolicamente a tristeza e a opressão deixadas pelo falecido, redescobrindo o prazer de estarem vivos e juntos.
Missa do Galo (Machado de Assis)
O Natal como cenário para a tensão psicológica e o desejo contido.
A História: O jovem Nogueira aguarda na sala de Conceição a hora da Missa do Galo. Conceição, descrita como uma mulher de “trinta anos traídos”, inicia uma conversa marcada por silêncios, pausas e olhares ambíguos.
O Desfecho: Nada acontece fisicamente, mas a atmosfera é carregada de erotismo sutil e melancólico. O Natal, aqui, serve de pano de fundo para revelar desejos humanos reprimidos no silêncio da madrugada.
Natal na Barca (Lygia Fagundes Telles)
Um conto existencialista atravessado pelo mistério.
A História: Em uma barca escura e fria na noite de Natal, uma narradora cética observa uma mulher pobre com um bebê doente nos braços e um bêbado. A travessia é marcada por desesperança e silêncio.
O Desfecho: Ao chegarem ao destino, o bebê, que parecia morto ou agonizante, abre os olhos e sorri. A narradora é tomada por um choque de luz e vida, sugerindo que o milagre natalino acontece nos lugares mais improváveis.
Natal no Paraguai (Rachel de Queiroz)
Um retrato duro do Natal em tempos de guerra.
A História e o Significado: Ambientado durante a Guerra do Paraguai, o conto apresenta soldados feridos e exaustos, contrastando a brutalidade do conflito com a esperança teimosa que o Natal ainda desperta, mesmo em cenários de miséria e dor.
Autores Contemporâneos
Escritores atuais, como Henrique Rodrigues e Felipe Fagundes, mantêm viva a tradição natalina ao reler temas clássicos — muitas vezes inspirados em Dickens — em contextos urbanos brasileiros, abordando diversidade, novos arranjos familiares e desafios sociais contemporâneos.
3. O Mundo Infantil e a Fantasia
Na literatura infantil, o Natal é o território da magia, da imaginação e das lições morais apresentadas por meio do fantástico.
O Quebra-Nozes (E.T.A. Hoffmann)
O conto que deu origem ao balé mais famoso do mundo.
A História: Na noite de Natal, Marie ganha de seu padrinho um boneco quebra-nozes. À meia-noite, o brinquedo ganha vida para protegê-la de um exército de camundongos liderados por um rei de sete cabeças.
O Desfecho: Após a vitória, Marie é conduzida ao Reino dos Doces, um mundo de fantasia absoluta que celebra a imaginação infantil acima da lógica adulta.
Como o Grinch Roubou o Natal (Dr. Seuss)
Uma crítica ao consumismo disfarçada de fábula moderna.
A História: O Grinch, criatura de coração “dois tamanhos menor”, odeia a alegria dos moradores de Quemlândia e decide roubar todos os enfeites e presentes.
O Desfecho: Ao perceber que a celebração continua mesmo sem objetos, ele entende que “o Natal não vem de uma loja”. Seu coração cresce, e ele passa a integrar a comunidade.
A Pequena Vendedora de Fósforos (Hans Christian Andersen)
Um dos contos mais tristes e comoventes da literatura infantil.
A História e o Significado: Uma menina pobre tenta vender fósforos no frio intenso da noite de Natal. Entre visões e delírios, Andersen constrói uma poderosa denúncia da desigualdade social, equilibrando dor, compaixão e transcendência.
O Pinheirinho de Natal (Hans Christian Andersen)
Uma fábula sobre tempo, desejo e aceitação.
A História e o Significado: Um pinheiro que sempre deseja ser maior e mais importante só compreende o valor do presente no instante final de seu brilho, oferecendo uma delicada reflexão sobre viver o agora.
A História e o Significado: Uma menina pobre, sem nada para oferecer no Natal, leva ervas comuns ao altar. Milagrosamente, elas se transformam em flores vermelhas vibrantes, que se tornam símbolo natalino em diversas culturas, reforçando a ideia de que a intenção vale mais do que o valor material.
4. Teatro e Tradições Populares
Auto do Pastoril (Nordeste Brasileiro)
Uma manifestação folclórica viva e participativa.
A Dinâmica: Encenação musical dividida entre o Cordão Azul e o Cordão Encarnado (Vermelho), que disputam quem louva melhor o Menino Jesus.
O Significado: Mistura o sagrado e o profano por meio de personagens cômicos, como o Velho, preservando a tradição dos autos medievais adaptados à cultura nordestina.
Auto de Canela (Rio Grande do Sul)
Um dos maiores espetáculos natalinos do país.
A História e o Formato: Realizado anualmente em Canela (RS), o auto utiliza recursos de ópera, teatro de rua e grandes encenações para representar o nascimento de Jesus, unindo tradição religiosa e espetáculo contemporâneo.
Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto)
O “Auto de Natal” pernambucano.
A História: O retirante Severino segue o curso do rio para fugir da seca e da morte, chegando ao Recife completamente desiludido.
O Desfecho: O nascimento de uma criança em um barraco transforma a desesperança em afirmação da vida. A “vida severina”, frágil e humilde, torna-se símbolo da resistência humana, ecoando o nascimento de Jesus na pobreza da manjedoura.
5. Além da Manjedoura: A Origem Pagã dos Símbolos de Natal
O Natal que conhecemos hoje é uma sobreposição de camadas históricas. Muitas das tradições que consideramos cristãs nasceram de rituais de sobrevivência ao inverno e celebrações do solstício, onde o homem tentava garantir que o sol voltaria a brilhar após os dias mais escuros do ano.
O Papai Noel: Do Guerreiro Viking ao Bispo Turco
A imagem do “Bom Velhinho” é uma das fusões mais complexas da história.
A Origem Viking e o Ritual de Passagem: Como você bem lembrou, há raízes nos rituais de iniciação nórdicos. Em tribos guerreiras, jovens eram enviados ao inverno rigoroso como um teste de sobrevivência. Retornar carregando a caça, vestindo peles de animais (como o urso ou a rena) viradas para dentro para manter o calor, com os rostos cobertos por barbas congeladas e brancas de neve, transformava o jovem em um “homem da comunidade”.
O Deus Odin: Na mitologia nórdica, o deus Odin montava seu cavalo de oito patas (Sleipnir) durante o inverno, liderando a “Caçada Selvagem”. Crianças deixavam botas com palha para o cavalo, e Odin, em troca, deixava doces.
A Transição Cristã: A Igreja sobrepôs a essas lendas a figura de São Nicolau, um bispo da atual Turquia famoso por sua generosidade. A cor vermelha, curiosamente, só foi definitivamente padronizada no século XX, mas a estrutura do personagem é puramente pagã.
A Árvore de Natal: O Culto à Vida no Inverno
Muito antes de ser a “Árvore de Cristo”, o pinheiro era sagrado para os povos germânicos e celtas.
O Culto a Yggdrasil: Para os nórdicos, o pinheiro era uma das poucas plantas que permanecia verde no inverno, simbolizando a vida que não morre. Eles decoravam árvores ao ar livre com comida e oferendas para os espíritos da natureza, pedindo que a primavera retornasse.
A Christianização: No século VIII, São Bonifácio, ao tentar converter os germanos, teria derrubado um carvalho sagrado dedicado a Thor e, em seu lugar, apontado para um pequeno pinheiro como símbolo do “Deus Triuno” (pelo seu formato triangular) e da vida eterna, desviando o culto da natureza para a fé cristã.
As Guirlandas: Proteção e Sorte
As coroas de ramos verdes que penduramos nas portas têm uma origem romana e celta muito específica.
Ritual Solar: No solstício de inverno, os povos antigos faziam guirlandas para representar a roda do ano e o retorno do sol. Pendurá-las na porta servia como um amuleto de proteção para impedir que espíritos malignos ou o “frio da morte” entrassem na casa durante as noites mais longas do ano.
O Presépio: A Única Invenção Puramente Cristã?
Diferente dos outros símbolos, o presépio tem uma “certidão de nascimento” clara. Foi criado por São Francisco de Assis, em 1223.

A Estratégia: Francisco queria explicar o nascimento de Jesus para camponeses analfabetos. Ele montou o primeiro presépio vivo com palha, um boi e um jumento em uma gruta na Itália. A ideia era humanizar a figura divina, trazendo-a para a realidade simples do povo, contrastando com as festas luxuosas da nobreza da época.
As Luzes e Velas: O Fogo Contra a Escuridão
Antes das lâmpadas de LED, o Natal era a festa do fogo.
Yule Log (O Tronco de Yule): Povos nórdicos queimavam um tronco enorme durante 12 dias. As cinzas eram guardadas para proteger a casa contra raios e má sorte. As velas nas janelas serviam para guiar os espíritos dos antepassados e viajantes através da escuridão do inverno. A Igreja adotou as luzes para simbolizar “Jesus, a Luz do Mundo”, mas a base é a necessidade humana ancestral de combater o medo das trevas.
Resumo para Complementação:
Este trecho mostra que o Natal não é uma data estática, mas uma construção cultural. A Igreja não apagou as culturas anteriores; ela as vestiu com novas roupas. O Papai Noel que hoje entrega presentes em um shopping é o descendente direto de guerreiros que sobreviviam ao gelo e de deuses que cavalgavam sobre as nuvens de inverno.
6. A Batalha dos Calendários: Por que 25 de Dezembro?
Historicamente, não há nenhuma evidência bíblica ou arqueológica de que Jesus tenha nascido em dezembro. Pelo contrário: o relato de que os pastores estavam com seus rebanhos ao relento sugere que o nascimento teria ocorrido na primavera ou no outono da Judeia, pois o inverno local é rigoroso demais para o pastoreio noturno. Assim, o dia de natal, dia 25 de dezembro é uma data arbitrária designada pela igreja, o que patronizou uma comemoração de celebração da vida, que historicamente é feita na primavera, num mesmo dia para todos os hemisférios, ou seja, em estações do ano distintas em cada parte do planeta.

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A escolha do dia 25 de dezembro foi estratégica para sobrepor e “cristianizar” três grandes celebrações pagãs que já dominavam o mundo antigo:
1. O Solstício de Inverno e o Natalis Solis Invicti
No Hemisfério Norte, o final de dezembro marca o Solstício de Inverno, a noite mais longa do ano. A partir dessa data, os dias começam a ficar mais longos — ou seja, “o sol renasce”.
A Festa Pagã: Os romanos celebravam o festival do Sol Invicto (Sol Invictus) em 25 de dezembro. Era a festa do deus solar Mithra, muito popular entre os soldados romanos.
A Substituição: Como era impossível impedir o povo de celebrar o “renascimento do Sol”, a Igreja declarou que o verdadeiro “Sol da Justiça” era Jesus. Assim, a festa do Sol Invicto tornou-se o Natal de Cristo.
2. As Saturnálias (Roma)
Entre os dias 17 e 23 de dezembro, Roma parava para as Saturnálias, em honra a Saturno, deus da agricultura.
O Ritual: Eram dias de absoluta inversão social: escravos eram servidos por seus senhores, as guerras eram suspensas, as casas eram decoradas com ramos verdes e as pessoas trocavam presentes (velas e bonecos de barro).
O Legado: O espírito de festividade, a troca de presentes e as grandes ceias de Natal são heranças diretas das Saturnálias romanas, que a Igreja não conseguiu apagar e decidiu “adotar”.
3. O Yule (Povos Nórdicos e Germânicos)
Enquanto os romanos celebravam Saturno, os povos do norte da Europa celebravam o Yule.
O Ritual: Era uma celebração de 12 dias dedicada ao deus Odin. O objetivo era invocar a fertilidade da terra e celebrar a vida que resistia ao gelo.
A Confluência: Os 12 dias do Yule deram origem aos “12 dias de Natal” (que vão do nascimento até o Dia de Reis). O tronco que era queimado para aquecer as casas tornou-se o simbolismo da luz de Cristo.
O Natal e a Páscoa: O Ciclo da Natureza
Existe um paralelo astronômico que a Igreja utilizou para unificar o calendário cristão com os ciclos da Terra:
| Evento Cristão | Relação Astronômica | Significado Original (Pagão) |
|---|---|---|
| Natal | Solstício de Inverno (Norte) | O “Nascimento” da Luz (o sol volta a crescer). |
| São João | Solstício de Verão (Norte) | O auge do sol e o início do seu declínio. |
| Páscoa | Equinócio de Primavera (Norte) | A ressurreição da natureza após a morte do inverno. |
Exportar para as Planilhas
Conclusão: Apagamento ou Preservação?
Embora a intenção da Igreja fosse apagar os ritos pagãos para evitar o “pecado” da idolatria, o resultado acabou sendo o oposto: o Natal tornou-se uma cápsula do tempo. Através da festa cristã, preservamos rituais vikings, costumes romanos e medos ancestrais do escuro que têm milhares de anos.
O Natal não “substituiu” o paganismo; ele se tornou uma máscara cristã para ritos humanos fundamentais de sobrevivência e celebração da vida diante da morte sazonal da natureza.
Sugestão de próximo passo: Gostaria que eu unisse todas essas partes (as histórias literárias, os símbolos vikings e esse paralelo histórico das datas) em um único arquivo de texto estruturado para você revisar?
7. O Natal no Século XXI: Da Redenção à Mercadoria
Se nas origens o Natal servia para unificar culturas ou celebrar a resistência da vida frente ao inverno, na modernidade ele se tornou a espinha dorsal do sistema capitalista. A transição do “sagrado” para o “comercial” não foi um acidente, mas uma das maiores operações de engenharia social da história moderna.
1. A Padronização do Desejo e o “Papai Noel da Coca-Cola”
Embora a figura do Papai Noel tenha raízes nos rituais vikings e em São Nicolau, a sua estética atual — o velhinho rechonchudo, de vermelho e branco, com botas pretas — foi consolidada e globalizada pelas campanhas publicitárias da Coca-Cola na década de 1930.

A Manipulação: O mercado percebeu que precisava de um símbolo que evocasse uma “generosidade compulsiva”. Ao transformar um mito ancestral em um garoto-propaganda, o sistema converteu a virtude da caridade no ato de comprar. O Papai Noel deixou de ser um juiz moral (que avaliava o comportamento) para ser um entregador de produtos.
2. A Obsolescência Programada dos Afetos
A sociedade consumista utiliza o Natal para criar o que sociólogos chamam de “obrigação da felicidade”.
O Gatilho Emocional: Através do marketing, estabeleceu-se que o valor do afeto é proporcional ao valor do presente. Isso cria um ciclo de endividamento e ansiedade. Se o “Quarto Rei Mago” sacrificava joias para salvar vidas, o consumidor moderno sacrifica sua saúde financeira para manter aparências sociais.
Datas Manipuladas: O Natal não está sozinho. Ele é o ápice de uma esteira de consumo que inclui a Black Friday, o Dia das Crianças e o Dia dos Namorados. Cada data é uma “estação” planejada para escoar estoques e manter a roda da economia girando, muitas vezes esvaziando o sentido original da celebração.
3. O Natal como Instrumento de Controle e Exclusão Social
O Natal moderno também serve como um espelho das desigualdades.
A Vitrine da Exclusão: Enquanto a publicidade mostra famílias perfeitas em ceias abundantes (um padrão eurocêntrico e inacessível para a maioria), uma parcela gigantesca da população experimenta a “depressão natalina”. A data torna-se um lembrete anual do que eles não podem ter.
A Caridade de Conveniência: Para as grandes corporações, o Natal é a época do “Marketing de Causa”. Praticam-se doações pontuais que geram isenções fiscais e limpam a imagem da empresa, sem que se discuta as raízes da pobreza que essas mesmas empresas podem ajudar a perpetuar durante o resto do ano.
4. A Dessacralização e o Novo Templo
Hoje, os verdadeiros templos do Natal não são mais as igrejas ou as praças onde se encenavam os Autos, mas os Shopping Centers.
O Ritual Moderno: O presépio foi substituído pela vitrine; a oração pelo ato de passar o cartão; o encontro comunitário pela fila para a foto paga com o Noel. A manipulação é tão profunda que o “espírito natalino” passou a ser medido pelo PIB e pelo volume de vendas do varejo.
8. Símbolos Apagados: Culturas Indígenas e Africanas sob o Natal Colonial
Antes de o Natal se consolidar no território brasileiro como celebração dominante, povos indígenas e africanos já organizavam o tempo a partir de outros marcadores simbólicos: o ciclo da lua, as colheitas, as chuvas, os ancestrais, os orixás e os encantados da mata, do rio e do fogo. Não se tratava de “datas festivas” no sentido europeu, mas de rituais de equilíbrio, renovação da vida e diálogo constante com as forças da natureza e do invisível.
Entre muitos povos indígenas, o fim e o início dos ciclos eram celebrados com danças, pinturas corporais, cantos e narrativas míticas, reafirmando a relação espiritual com a terra — que não era posse, mas parente. Já nas culturas africanas trazidas à força para o Brasil, rituais ligados a Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Xangô e outros orixás marcavam tempos de fartura, justiça, água, caça e ancestralidade. Esses ritos não se vinculavam ao nascimento de Cristo, mas à manutenção da vida coletiva e da memória ancestral.
Com a colonização, a escravização e a catequese forçada, muitos desses rituais foram proibidos, demonizados ou absorvidos pela lógica cristã. Datas, símbolos e gestos precisaram ser ressignificados para sobreviver: a festa virou “folclore”, o orixá virou “santo”, o ritual virou “brincadeira”. O sincretismo religioso brasileiro, muitas vezes apresentado como convivência harmoniosa, é também resultado de estratégias de resistência cultural diante da violência simbólica e material.
Nesse contexto, o Natal se impôs como narrativa oficial, enquanto outras formas de celebrar o tempo, a vida e o sagrado foram empurradas para a margem. Reconhecer esse processo não diminui o Natal; ao contrário, amplia sua compreensão, permitindo enxergá-lo como parte de uma história maior, marcada por disputas de poder, apagamentos e reinvenções.
Relações Simbólicas: o que foi apagado, ressignificado ou absorvido
| Cultura / Origem | Marcação do Tempo e do Sagrado | Ressignificação no Contexto Colonial |
|---|---|---|
| Povos Indígenas | Ciclos da natureza, colheitas, lua, rituais de passagem, relação com a terra | Redução a “folclore”, apagamento ritual, festas deslocadas do calendário escolar |
| Culturas Africanas | Ancestralidade, orixás, equilíbrio entre forças da natureza e da comunidade | Sincretismo forçado, associação a santos cristãos, perseguição religiosa |
| Cristianismo Colonial | Calendário litúrgico, datas fixas, centralidade do Natal | Imposição como narrativa oficial e moralizante |
Implicações Pedagógicas: Ensinar o Natal sem Reproduzir o Apagamento
Trazer essa dimensão histórica e simbólica para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental não significa ensinar religião, mas ensinar cultura, diversidade e justiça histórica.
Trata-se de reconhecer diferentes formas de existir, celebrar e compreender o mundo, em consonância com a BNCC e com as Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08.
Ao abordar o Natal de forma crítica e plural, a escola amplia o repertório simbólico das crianças e fortalece valores como empatia, respeito e escuta, sem culpa ou negação das tradições familiares, mas com consciência histórica.
Possibilidades Pedagógicas na Prática
- Comparar diferentes formas de marcar o tempo (ciclos naturais, colheitas, festas);
- Trabalhar símbolos como árvore, água, luz, comida e comunidade a partir de múltiplas culturas;
- Contar histórias indígenas e africanas que abordem renovação, nascimento simbólico e continuidade da vida;
- Estimular uma leitura crítica das narrativas dominantes, valorizando as vozes historicamente silenciadas.
Assim, o Natal deixa de ser apenas uma data no calendário escolar e passa a ser um ponto de partida para compreender como as histórias são contadas — e quem ficou fora delas.
Para as crianças, isso se traduz em empatia; para os educadores, em responsabilidade; para a escola, em coerência com seu papel social.
Nota:
Compreender as origens pagãs, as transformações literárias e a atual manipulação comercial do Natal não serve para tirar o brilho da festa, mas para nos devolver a autonomia. Ao entender que o Natal foi construído por camadas — de guerreiros vikings, de padres estrategistas, de escritores geniais e de publicitários astutos — podemos escolher o que celebrar.
Talvez o verdadeiro Natal resista não no shopping, mas naquelas histórias que discutimos: na libertação do “Peru de Natal” de Mário de Andrade ou na compaixão silenciosa do “Quarto Rei Mago”. O desafio do homem contemporâneo é resgatar o humano em meio ao entulho das mercadorias.
Proposta Pedagógica
Histórias de Natal: Símbolos, Contos e Lendas do Natal
Educação Infantil e Ensino Fundamental – Anos Iniciais
1. Justificativa Pedagógica
O Natal, enquanto fenômeno cultural, é resultado de múltiplas camadas históricas, simbólicas e narrativas. Muito além de uma celebração religiosa, ele se constituiu como um repertório de histórias, imagens, personagens e rituais que atravessaram culturas, foram ressignificados ao longo do tempo e, em muitos casos, impostos como narrativa dominante durante os processos de colonização.
No Brasil, a celebração natalina convive — nem sempre de forma visível — com saberes indígenas e africanos que organizavam o tempo a partir dos ciclos da natureza, da ancestralidade, da coletividade e da relação espiritual com a terra, a água, o fogo e os seres invisíveis. Esses saberes foram historicamente silenciados, demonizados ou absorvidos pela lógica cristã colonial, num processo de apagamento cultural que ainda reverbera na escola.
Proposta Pedagógica – Histórias de Natal
Abordagem cultural, simbólica e laica do Natal, valorizando o sincretismo religioso,
a diversidade brasileira, as culturas indígenas e afro-brasileiras
e a tradição das histórias, contos e lendas, em alinhamento com a BNCC.
| Eixo | Descrição |
|---|---|
| Público | Educação Infantil (4 e 5 anos) e Ensino Fundamental – Anos Iniciais |
| Objetivo Geral | Compreender o Natal como manifestação cultural por meio de histórias, símbolos e narrativas, promovendo empatia, criatividade, pensamento crítico e respeito à diversidade cultural. |
| BNCC | Campos de Experiência (Educação Infantil) e áreas de Língua Portuguesa, Arte, História e Geografia (Ensino Fundamental); Competências Gerais 1, 3, 8 e 9. |
| Abordagem | Laica, transversal e inclusiva, sem práticas religiosas formais, valorizando o sincretismo cultural brasileiro e reconhecendo os apagamentos históricos produzidos pela colonização. |
| Símbolos Trabalhados | Luz (esperança), presente (partilha), árvore (vida e ancestralidade), água (continuidade e cuidado), comida (convivência), caminho (viagem, encontro), personagens simbólicos. |
| Atividades | Contação de histórias, rodas de conversa, oficinas simbólicas, escrita criativa, teatro de sombras, fantoches e dramatizações. |
| Avaliação | Processual e formativa, considerando participação, expressão oral e artística, criação narrativa, cooperação e respeito à diversidade cultural. |
💡 Foco pedagógico: o Natal como narrativa cultural e humana,
não como doutrina religiosa, reconhecendo múltiplas formas de celebrar o tempo,
a vida e a coletividade.
Trabalhar o tema do Natal de forma não confessional e decolonial permite à escola cumprir seu papel laico, valorizando o sincretismo cultural brasileiro, promovendo o respeito à diversidade e desenvolvendo o pensamento crítico desde a infância, conforme orienta a BNCC e as Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08.
2. Objetivos de Aprendizagem
Objetivo Geral
Explorar o Natal como manifestação cultural e simbólica por meio de histórias, contos, lendas e expressões artísticas, promovendo o respeito à diversidade cultural, o desenvolvimento da imaginação, da linguagem, da empatia e da consciência histórica.
Objetivos Específicos
- Desenvolver a oralidade, a escuta sensível e a criação narrativa;
- Reconhecer diferentes formas culturais de celebrar o tempo, a vida e a coletividade;
- Identificar símbolos universais presentes em diversas culturas;
- Valorizar saberes indígenas, africanos e populares brasileiros;
- Estimular a empatia, a cooperação e o cuidado com o outro;
- Refletir criticamente sobre consumo, desigualdade e pertencimento.
3. Alinhamento com a BNCC
Educação Infantil – Campos de Experiência
- O eu, o outro e o nós
- Escuta, fala, pensamento e imaginação
- Traços, sons, cores e formas
- Corpo, gestos e movimentos
Ensino Fundamental – Anos Iniciais
- Língua Portuguesa: oralidade, leitura de contos, produção de narrativas;
- Arte: criação visual, teatro, música e expressão corporal;
- História: tradições culturais, memória social e diversidade histórica;
- Geografia: diversidade cultural, territórios e modos de vida.
Competências Gerais da BNCC
1 (Conhecimento) · 3 (Repertório cultural) · 6 (Trabalho e projeto de vida) ·
8 (Autoconhecimento e empatia) · 9 (Responsabilidade e cidadania)
4. Abordagem Transversal, Laica e Decolonial
O Natal será abordado a partir de seus símbolos culturais e narrativos, evitando práticas religiosas formais. A proposta valoriza o sincretismo como estratégia histórica de resistência e reconhece os apagamentos sofridos por culturas indígenas e africanas durante o processo colonial.
Símbolos Universais das Histórias de Natal (abordagem não religiosa)
- Luz: esperança, proteção, conhecimento, novos ciclos;
- Árvore: vida, ancestralidade, conexão entre mundos;
- Água: origem, cuidado, renovação;
- Comida compartilhada: comunidade, memória e afeto;
- Caminho/viagem: deslocamentos, encontros, travessias.
Personagens Simbólicos
- Velhos sábios e anciãos;
- Crianças viajantes;
- Animais observadores;
- Figuras populares (avós, pescadores, guardiões da floresta, mensageiros).
Esses símbolos dialogam com tradições indígenas (natureza e coletividade),
africanas (ancestralidade e oralidade) e festas populares brasileiras
(reisados, folias, congadas).
5. Propostas de Atividades
Educação Infantil (4 a 5 anos)
- Roda de Histórias – “Histórias que marcam o tempo”
Contação de histórias indígenas, africanas e populares sobre nascimento simbólico,
cuidado, partilha e ciclos da vida. - Oficina de Símbolos
Construção de lanternas, árvores simbólicas, potes de água da vida e
sacolas de “presentes invisíveis”. - Dramatização Livre
Criação de cenas sem texto fixo, explorando corpo, gesto, som e imaginação.
Ensino Fundamental – Anos Iniciais (1º ao 5º ano)
- Leitura e Escuta de Contos e Histórias de Natal
Histórias natalinas laicas, mitos indígenas, contos africanos e narrativas brasileiras. - Mapa Cultural dos Símbolos
Pesquisa guiada sobre símbolos de renovação em diferentes culturas. - Escrita Criativa
Temas: “Um Natal antes do Natal”, “A festa que não estava no calendário”,
“O presente que não se compra”. - Teatro de Sombras ou Fantoches
Uso da luz como elemento narrativo e poético.
6. Avaliação
A avaliação será processual e formativa, considerando participação,
expressão oral e artística, cooperação, criação simbólica e respeito
à diversidade cultural.
7. Fechamento
Trabalhar o Natal a partir de histórias, símbolos e lendas é uma oportunidade
de romper com visões únicas e restaurar narrativas silenciadas. Ao deslocar
o foco do consumo e do dogma para a cultura, a memória e a imaginação,
a escola contribui para a formação de sujeitos críticos, sensíveis e
conscientes de que as histórias — mais do que as datas — são o que
verdadeiramente atravessam o tempo.
PLANO DE AULA / SEQUÊNCIA DIDÁTICA
Tema: Símbolos apagados: culturas indígenas e africanas sob o Natal colonial
1. Identificação
| Etapa de Ensino | Educação Infantil / Ensino Fundamental I |
| Faixa Etária | 5 a 9 anos (adequável conforme a turma) |
| Duração | 2 a 4 aulas (50 minutos cada) |
| Área do Conhecimento | Linguagens / Ciências Humanas |
| Professor(a) | __________________________________ |
| Escola | __________________________________ |
2. Justificativa Pedagógica
O Natal, amplamente celebrado no contexto escolar brasileiro, costuma ser apresentado como uma narrativa única e universal.
No entanto, antes da consolidação do calendário cristão no território que hoje chamamos Brasil, povos indígenas e africanos
organizavam o tempo a partir de outros referenciais simbólicos: ciclos da natureza, ancestralidade, espiritualidade,
colheitas, águas, lua e forças da floresta.
Este plano propõe ampliar o olhar das crianças sobre o Natal, compreendendo-o como uma entre muitas formas de marcar
o tempo e celebrar a vida. A abordagem respeita o caráter laico da escola e promove o reconhecimento das culturas
indígenas e afro-brasileiras, conforme orientam as Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08, contribuindo para uma educação
antirracista, plural e historicamente responsável.
3. Objetivos de Aprendizagem
- Reconhecer que diferentes povos organizam o tempo e as celebrações de maneiras diversas.
- Valorizar culturas indígenas e afro-brasileiras como produtoras de saberes, símbolos e narrativas.
- Identificar símbolos presentes em diferentes culturas relacionados à vida, renovação e coletividade.
- Desenvolver escuta sensível, empatia e respeito à diversidade cultural.
- Estimular a leitura crítica de narrativas dominantes de forma adequada à infância.
4. Habilidades da BNCC (exemplos)
Educação Infantil
- (EI03EO01) Demonstrar atitudes de cuidado e respeito nas interações com o outro.
- (EI03EF03) Criar e contar histórias orais com base em diferentes culturas.
- (EI03TS02) Expressar-se por meio de desenhos, pinturas, colagens e dramatizações.
Ensino Fundamental I
- (EF02HI03) Reconhecer diferentes formas de organização do tempo e da vida social.
- (EF03LP01) Escutar, compreender e recontar narrativas de diferentes tradições culturais.
- (EF04HI07) Identificar permanências e mudanças nos costumes e celebrações ao longo do tempo.
5. Conteúdos Trabalhados
- Marcação do tempo em diferentes culturas
- Símbolos naturais: árvore, água, luz, alimento, terra
- Narrativas indígenas e afro-brasileiras
- Natal como construção histórica e cultural
- Resistência cultural e sincretismo
6. Metodologia / Desenvolvimento
Etapa 1 – Roda de conversa
Iniciar com perguntas disparadoras: “Como sabemos que o ano está terminando?”,
“Todas as pessoas comemoram o Natal da mesma forma?”,
“Antes do Natal existir, como será que as pessoas celebravam a vida?”
Etapa 2 – Contação de histórias
Contar histórias indígenas e africanas que abordem ciclos da natureza, nascimento simbólico,
renovação da vida, água, floresta ou ancestralidade, utilizando livros, narrativas orais,
teatro de sombras ou objetos simbólicos.
Etapa 3 – Exploração simbólica
Apresentar símbolos comuns (árvore, água, luz, comida, comunidade) e discutir seus significados
em diferentes culturas, comparando com o Natal cristão de forma respeitosa.
Etapa 4 – Produção expressiva
Propor desenhos, colagens, construção de painéis coletivos ou pequenas dramatizações
representando diferentes formas de celebrar a vida e o tempo.
7. Recursos Didáticos
- Livros de literatura indígena e afro-brasileira
- Imagens, tecidos, elementos naturais (folhas, sementes, água simbólica)
- Materiais para desenho e colagem
- Objetos sonoros e musicais
8. Avaliação
A avaliação será contínua e qualitativa, baseada na observação da participação,
das falas das crianças, do envolvimento nas atividades e das produções expressivas.
Serão considerados o respeito à diversidade, a escuta do outro e a capacidade de
estabelecer relações entre diferentes narrativas culturais.
9. Considerações Finais
Ao abordar o Natal sob uma perspectiva ampliada e crítica, a escola cumpre seu papel
social de formar sujeitos conscientes, sensíveis e respeitosos. Para as crianças,
essa experiência fortalece a empatia; para os educadores, reafirma a responsabilidade
ética; e para a escola, garante coerência com os princípios da educação pública,
laica e plural.





























